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Perfil do Associado
Cinthia Beatriz da Silva Bittencourt Schaefer
A arte de julgar com sensibilidade e equilíbrio

 

Quando encerrou o ensino médio, em Porto Alegre, a adolescente Cinthia tinha como objetivo ser jornalista. Para lá de extrovertida, gostava de conversar, ouvir os amigos e estar na rua. Contudo, os primeiros semestres do curso de Comunicação Social não estavam dentro daquilo que havia esperado e, por isso, decidiu bater na porta das salas de aula do curso de Direito.

A opção foi por acaso, afinal, não havia influência profissional de familiares ou pessoas próximas. E daí para frente, como se pode concluir, a escolha deu certo. “Não havia ninguém em que pudesse me espelhar, já que meus pais trabalhavam em áreas distintas. Quando comecei o curso, um professor, que era juiz, vivia comentando sobre a carreira judicante. Achei a área interessante, vi que se encaixava com o que planejava para o meu futuro e aqui estou”, revela.

Cinthia formou-se em Direito em 1988, pela Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, cidade vizinha da Capital gaúcha. Dois anos foram necessários para que ela desembarcasse em Florianópolis, aos 25 anos, para prestar concurso à Magistratura catarinense. Também realizou provas no Rio Grande do Sul. Lá, ela passou nas primeiras fases, mas aqui a seleção foi mais rápida e, então, acabou ingressando na Justiça catarinense.

De 1990 para cá, a magistrada fez um tour por Santa Catarina, principalmente pelas regiões Oeste e Sul. Iniciou em Abelardo Luz, passou por São Domingos, Xanxerê, Araranguá, Sombrio, Turvo, Tubarão, Laguna, Xaxim, Videira, Curitibanos e Rio do Sul, esta última onde ficou por 12 anos.

“Gostava muito das Comarcas do Litoral, mas acabei me identificando mais com Rio do Sul, também em razão da família. Minha filha estava entrando na 1ª série do Ensino Fundamental e queria que ela criasse um grupo de amigas. Acabei ficando e gostando muito da cidade. Meu marido e meu filho moram lá e costumo passar os finais de semana com eles”, conta.

No município do Alto Vale do Itajaí, a Juíza atuou na maior parte da carreira na área criminal, lidando com questões “pesadas”, diariamente. Por outro lado, fez questão de criar laços com a comunidade local, tendo como um dos objetivos a promoção de ações que ajudassem o desenvolvimento dos adolescentes da região.

O trabalho voluntário na Casa Lar de Rio do Sul é uma das iniciativas que mais lhe deixam emocionada, ao ver que os esforços deram resultados. “O abrigo estava em péssimas condições. Para recuperá-lo, fui muitas vezes cobrar estacionamento, em shows que ocorriam na cidade. Quando sai de lá, o lar estava totalmente reformado e bem estruturado”, revela.

Por sua atuação no Judiciário, bem como aos serviços voluntários, a Câmara de Vereadores homenageou-lhe com o Título de cidadã rio-sulense. Durante o período em que atuou na região, também recebeu outras condecorações das polícias Civil e Militar do município.

Causos da Magistratura

Todo o magistrado, pela própria essência da carreira, convive diariamente com dramas e conflitos sentimentais inerentes aos seres humanos. E com a Juíza Cinthia, em seus mais de 20 anos de carreira, não seria diferente. Num dos tantos casos criminais que julgou, ela passou de coadjuvante a protagonista, em uma audiência do Tribunal de Júri, na Comarca de Abelardo Luz. O filho da vítima queria vingar a morte do pai e acabou apontando um revólver para o rosto da magistrada, em uma situação de total de desespero. “Foi um tremendo susto, já que recém havia entrado para a magistratura. No entanto, mantive a calma e, com o auxílio da polícia e dos servidores do Fórum, conseguimos reverter a situação”, relata.

A esfera criminal é a preferida da magistrada e à qual ela mais se dedicou, durante a carreira. Fora responsável pela execução e correição penal de várias comarcas por onde passou, área em que também enfrentou situações delicadas. “Em duas rebeliões, no Vale do Itajaí, tive que negociar diretamente com os detentos. Ficamos por 24 horas em negociação”, revela. Tamanho empenho às questões prisionais fizeram o Conselho Nacional de Justiça convidá-la para atuar como juíza auxiliar em inspeções a penitenciárias e presídios de várias partes do país. Nesse período, ela pôde constatar a realidade, há tempos divulgada pela imprensa, do precário Sistema Prisional brasileiro, principalmente nos estados mais pobres do país.

Formada em psicologia em 2010, a magistrada conseguiu aliar a experiência jurídica aos conhecimentos comportamentais humanos, na hora analisar os processos e os tratamentos dados às vítimas e agressores. Uma das constatações é, justamente, referente a forma que se busca a recuperação dos condenados por violência sexual. “Nesses casos, não acredito que a simples reprimenda irá tratar o agressor. Seria necessário um tratamento muito mais eficaz, o que não existe. Colocar a pessoa num presídio e esquecê-la lá dentro, ainda mais com as condições atuais, só piora a situação. Todo esse sistema deveria ser repensado. É por isso, os índices de reincidência são tão altos”, reflete.

Na área da psicologia, a magistrada ainda realizou trabalhos voluntários no atendimento a vítimas e agressores, envolvidos em violência sexual, ainda quando estudava na Unidavi, em Rio do Sul. Para ela, a formação trouxe uma nova forma de ver a vida. “A tendência do juiz criminal é ficar uma pessoa muito dura, porque só convive com coisas pesadas. E a psicologia te ajuda a voltar a ter sensibilidade, a enxergar o outro como um ser em movimento, que nada é estático e que as pessoas podem mudar”, acrescenta a juíza, que se considera uma “julgadora equilibrada” e prefere se embasar pela análise técnica, do que se guiar por métodos alternativos.

“Deixa a vida me levar”

Após duas décadas de atuação na 1ª Instância, a magistrada Cinthia tomou posse como Juíza de Direito de 2º Grau, em 2011, fato que a fez se mudar para Florianópolis, acompanhada da filha caçula, de 19 anos, e da enteada. O costume com a rotina dinâmica das audiências de antes, quase que diárias, lhe pediram um tempo de adaptação no Tribunal de Justiça. “É um trabalho diferente do 1º Grau. Aqui já é voltado mais para gabinete, em que a gente se envolve mais no estudo dos casos. Meu perfil é de ter interação com as pessoas, gosto de conversar e saber as opiniões, por isso houve essa necessidade de adaptação”.

Quando o assunto é hobby, a juíza aprecia os programas em família e com amigos. Desde que veio para cá, se divide entre as idas à praia e os finais de semana em Rio do Sul. “Adoro o mar, se eu pudesse eu viveria na praia. Fora isso, gosto de cinema, teatros, de sair com os amigos e ir a shows, desde que não sejam de sertanejo. O meu negócio é estar na rua”, conta, aos risos.

Já em casa, o carisma e a influência da magistrada conquistou e, ainda, conquista a família. A genética também deu as caras e fez com que a magistrada distribuísse, em ordem cronológica, as tendências aos filhos. Felipe, o primogênito de 26 anos, seguiu a carreira da mãe e se formou em Direito, recentemente. A caçula Mariana, consequentemente, está cursando psicologia na Ufsc. E para fechar a conta, a Juíza Cinthia ainda apoiou a enteada Karina, quando pensava em mudar de graduação. A jovem fazia Publicidade e Propaganda, acabou se interessando por jornalismo e, hoje, já está na quarta fase do curso.

Quanto ao futuro, a juíza de 2ª Grau acredita que ainda tenha muito a contribuir com a sociedade catarinense. Seja como julgadora ou como psicóloga. “A vida vai me levando, no estilo Zeca Pagodinho. A tendência natural é ir alcançando outros patamares aqui no Tribunal de Justiça. Tenho um bom tempo no Judiciário até a minha aposentadoria. Se constatar que a magistratura não me satisfaça mais ou se eu puder contribuir de outra forma, certamente, seguirei em frente”, finaliza.