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Perfil do Associado
Desembargador aposentado Wilson Guarany Vieira
“A esperança do povo ainda é a Justiça”

De um “tempo mais difícil”, como se considera, o Desembargador aposentado Wilson Guarany Vieira recorda como as dificuldades da falta de infraestrutura e de comunicação  somaram à sua experiência de magistrado. “Deu tudo certo. Fez parte da vida e da caminhada”, avalia com otimismo, os 52 anos de carreira e dedicação. Com satisfação olha para trás, contempla o que percorreu e, alíviado, sente que cumpriu seu dever.

É com precisão na memória, que ele volta ao ano de 1962, quando foi aprovado no concurso. Momento inesquecível, para quem escolhe esta profissão. Sua primeira comarca, como juiz substituto, foi na circunscrição de Tubarão. Junto dele, a esposa e a filha, na época com três anos, sempre o acompanharam. Hoje em dia, a família cresceu. Teve mais um filho, já ganhou netos e bisnetos, mais recentemente.

Durante a carreira precisou enfrentar diversas situações desafiantes. Uma delas, no Sul do Estado, foi com um crime que envolvia uma personalidade da cidade. Como o delegado não tinha o costume de tomar por termo o depoimento das testemunhas, elas mudavam a declaração a cada momento. “O inquérito só crescia e não se chegava a nenhuma conclusão”, reforça. Quando recebeu o caso, Vieira orientou o delegado e encaminhou o julgamento. Por fim, conseguiu decretar a prisão dos suspeitos. Mas esse não foi o fim. “Corria pela cidade o boato, que iriam matar o juiz”, destaca. Para garantir sua segurança, então, ele precisou ser escoltado pela Polícia Militar. Depois de um mês, tudo se acalmou.

Em seguida, Wilson foi transferido para Dionísio Cerqueira, um cidade pequena no Extremo Oeste de Santa Catarina. Chegar até lá, não foi tão simples. Precisou viajou no avião da Sadia, que carregava passageiros e carga, até Chapecó. Naquele dia chovia muito e, ainda por cima, o combustível da aeronave não era suficiente para chegar no destino. Foi preciso fazer um pouso em Videira, em uma pista pequena e dificultosa, para recolocar o combustível.

Para chegar mesmo, em Dionísio Cerqueira, foi preciso, ainda, andar alguns quilômetros de ônibus. “Com tudo lá dentro: pessoas, charuto, pássaros nas gaiolas, malas, encomendas”, enumera. Sem estrada asfaltada, precisou de 12 horas para chegar. Ele ficou uma hora por ali, na rodoviária. Assim que sentou, chegou perto de mim um “policinha” puxando assunto e dizendo que “ali era um lugar bom para contrabando”. Isso, sem saber que ele era juiz.

A cidade, que não tinha energia elétrica e nem telefone, oferecia poucos confortos. Para tomar banho, por exemplo, era preciso usar um latão com água quente. “Eu virava bem aos poucos”, explica, ao recordar do medo da lata desamarrar e cair.  Já a comunicação era feita, com dificuldade, pelo rádio da polícia. 

Um das partes mais delicada foi quando, mordido por uma aranha ou escorpião na perna, precisou de um tratamento especial. Na hora, como não sentiu a picada, não deu tanta importância. Só depois, quando o médico chegou a cogitar em amputar a perna, que estava dura e muito dolorida. “Minha esposa foi muito dedicada. Precisou passar uma noite inteira cuidando do ferimento”, conta. No fim, depois de tomar vários remédios e fazer o tratamento, conseguiu recuperar os movimentos do membro.

Outro episódio desafiante que precisou enfrentar foi em Braço do Norte. O salário era pago pontualmente pela senhora da coletoria da região, mas como ele julgou uma causa em que ela estava envolvida e não foi favorável ao seu lado, ela ficou por dois meses sem efetuar o pagamento. “Precisei ir até o Tribunal, em Florianópolis, para resolver minha situação”, conta, achando graça.

De lá, passou pela Comarca de Palhoça, antes de chegar no Fórum da Capital. Exatamente depois de 20 anos como juiz de 1º Grau, Wilson foi eleito como Desembargador, em 1982. No Tribunal de Justiça autou sempre na terceira Câmara de Direito Civil, onde, inclusive, foi presidente. Chegou a ser corregedor geral de Justiça, foi vice-presidente do TJ e assumiu temporariamente a presidência, algumas vezes.

Nesse período, chegou a ser presidente do Tribunal Regional Eleitoral, no contexto de transição para o voto eletrônico. Por isso, viajou para o Rio de Janeiro e São Paulo para acompanhar eleição eletrônica. Sua principal marca, foi a fundação do Colégio dos Presidentes, órgão que reúne os representantes de todo os tribunais, para tratar de assuntos em comum.

“Na minha época não existia a facilidade de hoje com a internet. A gente levava 10 livros para casa, às vezes, para poder estudar”, considera. Para ele, atualmente, é mais fácil de decidir, é mais rápido. “Mas, por outro lado, as demandas estão maiores”, contrapõe.

Ao analisar a sociedade, sobretudo a políticas, Wilson acredita que as relações estão muito marcadas pelo descaso e a corrupção. “A politicagem de hoje deixa muito a desejar, já que o interesse pessoal está acima do coletivo e o objetivo é apenas continuar no poder”, justifica. Para ele, como consequência,  o povo espera muito do Poder Judiciário. “A esperança do povo ainda é a justiça”, resumiu . E concluiu: “Por isso temos que ter um judiciário forte e independente”.

Para o magistrado, é a agitação do cotidiano, nos tempos atuais, que dá a sensação da vida passar ligeiro demais. “O tempo voa e parece que foi ontem tudo começou”, assusta-se.