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Perfil do Associado
Juíza Alexandra Lorenzi da Silva
“Ser mãe me tornou uma juíza melhor”

Trabalhar fora e ter filhos não é uma situação incomum. Muito pelo contrário. Grande parte das mulheres cria seus filhos, dá atenção aos familiares e ainda consegue um jeito de realizar as tarefas domésticas. Na magistratura não é diferente, mas, muitas vezes, é preciso ser uma verdadeira equilibrista para dar conta de tanta coisa. Juíza há 13 anos, Alexandra Lorenzi da Silva, que atualmente é titular da Vara de Execuções Penais da comarca de São José, conta que conciliar carreira e maternidade exige organização e dedicação. “Apesar dos meus filhos estarem maiores (eles têm nove e seis anos) e não exigiram tanto a minha presença, eles têm as suas atividades e, então, sempre é preciso algum planejamento. Durante a manhã tento dar atenção, pois o tempo que eu estou aqui no fórum é para trabalhar. É como se virasse uma ampulheta e, nesse tempo, tenho que dar o máximo de mim. É um desafio diário”, conta.

Alexandra iniciou a carreira em 2002, aos 27 anos. Começou como juíza substituta em Florianópolis e Balneário Camboriú até ser promovida à juíza de Direito e atuar no município de Herval d’Oeste, onde instalou a comarca. “Foi bem interessante porque o município de Herval d’ Oeste é um dos mais carentes aqui do Estado. A presença do Poder Judiciário ajudou muito, com um Juizado da Infância e da Juventude mais atuante. Foi uma área que eu atuei bastante naquela época”, recorda.

Depois, passou pelas comarcas de Camboriú e Palhoça e, há pouco mais de um ano e meio, está na comarca de São José, na Grande Florianópolis. “(A área criminal) foi uma feliz surpresa, porque na verdade eu sempre tive mais afinidade com o Direito civil, com o processo civil. Quando eu vim pra cá, para a Vara de Execuções Penais, que cuida de São Pedro de Alcântara e da Colônia Agrícola Penal de Palhoça, várias pessoas me questionaram, perguntando se eu não tinha medo. Mas eu nunca tive medo, nem receio de enfrentar uma matéria, ou uma vara, pelo contrário. Para mim é sempre um novo desafio e, em qualquer vara que eu estiver atuando, sempre vou tentar dar o meu melhor e deixar a minha marca”, garante.

Relembrando o início da carreira, Alexandra conta que morar no interior foi um grande desafio, mas fundamental para o seu crescimento pessoal e profissional. “Já faz 10 anos que morei em Herval d’Oeste. Na época, a cidade tinha um pensamento mais machista, não estava acostumado a ter uma juíza mulher. O interior é um pouco mais fácil para os homens”, diz, e completa: “Mas eu sempre penso que a carreira é muito sábia. Nós aprendemos muito com ela. Vamos para o interior, uma cidade menor, onde os problemas, querendo ou não, também são menores, mais fáceis de lidar e a gente vai aprendendo com tudo isso. Eu faria tudo de novo”.

Durante sua trajetória, ao longo do qual se tornou mãe de dois meninos, passou a enxergar a pessoa por trás dos papéis e desenvolveu um olhar mais humano. “A maternidade me tornou uma pessoa melhor em todos os aspectos e percebi que eu me tornei uma juíza melhor também. A gente passa a olhar a vida de uma forma diferente. Eu era mais rígida e legalista, mas, depois da maternidade, passei a olhar para cada pessoa e dar o devido tempo para cada um, para cada processo”, explica.

Segundo Alexandra, é importante o juiz saber ouvir. “Muitas vezes, o que motiva uma ação, em uma indenização, por exemplo, é só um pedido de desculpa. Eu já passei por algumas situações assim. No interior, por exemplo, a nossa figura é muito importante. Eu lembro de uma vez em que um avô trouxe uma menina de 14 anos para conversar comigo. Ele me contou que já havia feito de tudo e a menina não tomava jeito, então resolveu trazer a garota para conversar com a juíza. Acabei conversando para dar uma atenção para aquele senhor, que achava que a minha palavra ia mudar o comportamento daquela menina. É engraçado, pois eles enxergam a gente como alguém que pode fazer a diferença e é importante sabermos desempenhar esse papel”, diz.

A juíza destaca ainda o esforço do Poder Judiciário em tentar tirar da via judicial a solução de conflitos, tendo como foco a mediação e a conciliação. “Eu sou uma forte defensora da conciliação, mas ainda é preciso mudar a cultura das pessoas. Tem que haver uma campanha maior para as pessoas resolverem seus conflitos entre si, seja na presença de um juiz ou previamente. Infelizmente, a nossa cultura é sempre relegar para o juiz a decisão final. Acho que a conciliação é o caminho, pois estamos com muitos processos, o acesso à Justiça está cada vez mais amplo e estamos passando por essa fase da judicialização de todos os poderes. Ou seja, o Poder Judiciário é a última ‘tábua de salvação’ que temos. Acho que as pessoas precisam pensar maneiras de resolver seus conflitos. O acordo é sempre mais válido que uma sentença. Porque numa sentença ou a pessoa ganha tudo ou perde tudo”, reforça.

Ela reitera ainda a necessidade de uma reforma no atual modelo de sistema recursal brasileiro. “O sistema recursal é muito amplo. Acho que precisamos validar mais a decisão do juiz de 1º grau e, talvez, o que ocorre no Juizado Especial hoje seria uma solução para todas as outras matérias, com recursos limitados. Se não, o processo nunca acaba. No Juizado Especial é mais simples e mais restrito e penso que poderia ser assim para as demais matérias. Muitas vezes a gente vê que os apenados vão se usando dos furos que existem na legislação para ganhar tempo, o que é legal, mas não é moral.”, pontua.