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Perfil do Associado
Juíza Bettina Maria Maresch de Moura
“Julgar pessoas exige muito de um Magistrado”
“Julgar é se colocar no lugar do outro”. O ensinamento do jusfilósofo Luis Alberto Warat  é, para a Juíza Bettina Maria Maresch de Moura, a melhor definição do papel do Magistrado. “(Se colocar no lugar) Do autor e do réu, do agressor e da vítima e ponderar as consequências que aquela decisão terá em suas vidas”, diz. 
 
Juíza da 1ª Vara Cível de Chapecó, Bettina nasceu em Joaçaba, no meio-oeste catarinense. De cidade pequena, cresceu em uma casa cercada de muito verde e animais, como galinhas, patos e coelhos: “havia sempre muito espaço para brincar. Perto da minha casa havia terrenos baldios e também um ferro velho, onde o tempo parecia não existir. Nas férias ia a sítios na cidade de Treze Tílias, de colonização austríaca e também muito para Piratuba, onde há águas termais. Por pelo menos uma semana ia com uma vizinha na casa de sua avó, a qual ficava localizada ao lado do cemitério, onde passávamos horas perambulando, decorando nomes, arrumando flores caídas... às vezes dava um pouco de medo, mas fazia parte do interesse de estar ali. Já a adolescência foi uma época de amigos, festas, gincanas promovidas por rádios. Dá saudade lembrar de tudo isso”. 
 
Filha de mãe austríaca e de pai descendente (o avô paterno de Bettina era austríaco e sua avó, alemã), teve uma educação rigorosa. Todos os dias, ao menos duas horas eram dedicadas aos estudos. Além disso, dentro de casa, falava-se apenas em alemão. “Meus pais recebiam um jornal – Brasilpost – de onde minha mãe extraia pequenos artigos, para que eu lesse em voz alta. Dizia ela que um dia eu precisaria falar em público e que isto me ajudaria”, recorda. 
 
Aliás, desde a infância, a leitura sempre foi seu maior hobby, muito devido ao incentivo que recebeu dentro de casa. “Sobre a mesa da sala, sempre havia uma pilha de revistas e jornais. Sentar-se ali e começar a ler alguma coisa, para depois conversar nas refeições sobre as novidades, era quase automático. Ainda hoje, meu pai, aos 87 anos, assina vários periódicos e passa boa parte do dia lendo. Minha mãe, uma leitora voraz e que tanto me incentivou, hoje apenas me ouve, devido ao mal de Alzheimer”.
 
A ligação com o Direito também veio cedo. Na adolescência, Bettina gostava de participar de peças de teatros, escrevendo, inclusive, os roteiros,  com os quais ganhou dois prêmios estaduais. Também participava dos grêmios estudantis e tinha, como diz,  a “mania de tentar resolver os problemas dos outros” e tecer críticas sobre o que achava errado. “Os colegas falavam que eu seria promotora”, lembra. 
 
Com 15 anos, mudou-se para Florianópolis para concluir o ensino médio. “Muitos anos depois, meu filho mais velho foi para a Capital e, coincidentemente, acabou estudando no mesmo prédio e exatamente na mesma sala de aula”, conta.
 
Prestou vestibular para o curso de Direito, logrando êxito perante a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ainda caloura, estagiou na Caixa Econômica Federal onde, mais tarde e após  concurso público,  trabalhou como economiária. “Exerci minhas funções na superintendência que ficava na Beira Mar Norte, num setor que se chamava ‘Venda e Administração de Imóveis’. Este setor era responsável por toda a documentação dos imóveis que eram retomados pela CEF, formulação de editais para nova alienação e refinanciamento. Como já fazia o curso de Direito, acabei me dedicando a toda a legislação pertinente e era praticamente a única responsável por todos os editais de venda no Estado”, diz. Acrescenta que “ainda antes do término do curso e como o horário de bancária permitia, comecei a trabalhar em um escritório de advocacia. Formada, fiz novo concurso público, desta feita para advogada da CEF. Diante da minha colocação, fui chamada para trabalhar em Brasília, mas decidi ficar em Florianópolis.” 
 
A próxima etapa foi cursar a Escola da Magistratura. Durante os estudos, se submeteu ao primeiro concurso para a Magistratura. “Não passei para a prova oral, por um erro crasso cometido pelo presidente da Comissão, hoje já falecido. Naquela época não se recorria como hoje. Por conta do ocorrido, decidi que não iria mais participar de nenhum concurso estadual. Mas, por insistência de uma colega e hoje Juíza de Direito, acabei me submetendo a novo certame, no qual logrei êxito, iniciando minha carreira no Judiciário catarinense. Na época do concurso, eu recebia de salário quase duas vezes e meia o que passaria a receber como magistrada. Havia uma novela cuja personagem era protagonizada pela Bruna Lombardi e cujo nome fícticio era Bettina. Ciente que iria morrer, ela doou seu coração. Durante a prova oral, o saudoso Des. Ernani de Palma Ribeiro com o meu contracheque na mão, me perguntou se assim como aquela Bettina, eu também doaria meu coração à magistratura e foi o que eu fiz.” 
 
Ficou pouco tempo como Juíza substituta na Capital, logo sendo encaminhada para a Comarca de Chapecó. Em tese, permaneceria por dois meses, mas, desde então, passaram-se quase 23 anos. “Como substituta, não houve comarca do oeste e meio-oeste onde não trabalhei, mesmo que por apenas um dia, para realizar audiências. Acabei conhecendo meu futuro esposo, casei, tive dois filhos - hoje com 20 e 14 anos. Iniciei como titular em São Domingos. Fui então para São Miguel do Oeste e lá aguardei abrir vaga em Chapecó, onde havia ficado minha família. A vida foi uma estrada por pelo menos oito anos, até que enfim, voltei. Trabalhei no Juizado Especial até a aposentadoria de um colega e em 2002 assumi na 1ª Vara Cível de Chapecó, onde estou até hoje”, relata.
Ao longo da carreira, muitos foram os casos marcantes: rebelião em penitenciária, fechamento de hospital, afastamento de político, autorização para enterro, prisão de cartorário. “Quando se olha para trás, é como se tivesse três vezes mais anos do que efetivamente tenho. São tantos os fatos, tantos os lugares, que a percepção que se tem, é que você estava dentro de uma novela e que não apenas as partes que integram os autos vivenciaram tudo aquilo, mas você também. Você  sofreu e se alegrou com cada momento que lhe foi apresentado. Terminado o processo, ele foi arquivado e como nos folhetins, outra história se inicia, com novos personagens.” 
 
Dentre tantos processos, dois casos vem à memória da Magistrada de forma  recorrente: “Trabalho exclusivamente no cível há muitos anos, mas quando se fala em alguma situação marcante, dois feitos criminais me vem instantaneamente à mente. Foram crimes de abuso sexual contra duas crianças. Uma por um pastor e outra pelo próprio pai. Jamais vou esquecer o depoimento dos agressores e destas duas crianças, seus rostos e, em especial, seus olhos. As duas vítimas eram crianças extremamente bonitas, com  sete e oito anos. Amadurecidas por uma vida de pobreza, falavam como adultas, discorrendo o relato chocante. O irmão de uma delas, com apenas quatro anos, tentou socorrê-la e foi arremessado pelo pai, tendo traumatismo craniano, vindo posteriormente a óbito. A mãe, que denunciou o crime, veio meses depois pedir a soltura, porque ela e os demais cinco filhos pequenos estavam  morrendo de fome. Quanto a outra, submetia-se a lascívia de uma pessoa que se dizia temente a Deus, para que pudesse ao final receber um sanduíche e um refrigerante, que lhe eram mostrados e oferecidos, mas só entregues após horas de agonia. Julgar sobre coisas, valores monetários, é muito fácil. Já julgar pessoas, interpretar sentimentos, exigem muito de um Magistrado”. 
 
Para os colegas de profissão, ela deixa como mensagem o respeito a cada vida envolvida no processo. “Hoje muitos Juízes falam em números, pensam em números e não em situações efetivamente resolvidas de forma justa. Sei que as cobranças e as promoções têm ocasionado este efeito, pela excessiva importância que tem sido conferida a dados estatísticos. Mas um Juiz não deve trabalhar com uma calculadora, mas com a cabeça, o coração e muita dedicação”.