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O trabalho silencioso de articulação política

Antes de qualquer conquista, existe debate

Nem todo trabalho associativo pode ser percebido imediatamente pelos associados. Antes de uma decisão ou de uma conquista para a carreira, existe um caminho feito de reuniões, visitas, conversas, argumentos, negociações e construção de relações institucionais. 

Sérgio Luiz Junkes, presidente da AMC entre 2012 e 2015, lembra que parte importante da atuação da Associação acontecia justamente nesses espaços. 

“Às vezes é um trabalho que ninguém vê. Estar no TJ toda semana, bater na porta da presidência, ir na corregedoria, conversar, estar junto. Esse trabalho de bastidores, de corredores, esse diálogo, é um trabalho amplo.” 

José Agenor de Aragão, presidente da AMC entre 2006 e 2009, também recorda que a articulação política fazia parte da rotina da presidência.  

“Acho que a maior parte do trabalho do presidente da Associação é um trabalho que não aparece. É um trabalho político, de bastidores.” 

Presença onde as decições acontecem

A articulação não se restringe ao Tribunal de Justiça. Ao longo do tempo, a atuação associativa passou a exigir presença em diferentes espaços institucionais, dentro e fora de Santa Catarina. 

Junkes lembra que a Associação exerce um papel de representação política da Magistratura, construindo interlocução com o Tribunal, o Poder Legislativo e outras instituições. 

“A Associação é esse braço político da Magistratura“, lembra Junkes.  

Durante sua gestão, esse trabalho envolveu, por exemplo, a construção de uma proposta legislativa relacionada ao auxílio-moradia. “Foi construída por um projeto nosso, foi dialogado, aperfeiçoado junto com o Tribunal de Justiça, junto com os membros da Assembleia Legislativa, o Tribunal de Contas do Estado. Então, a partir desse trabalho todo, acabou virando realidade.” 

Ao recordar sua experiência na presidência da AMC e, posteriormente, na presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Ricardo Roesler destaca a importância dessa interlocução permanente.

“Existe muita conversa preliminar sobre qualquer pleito e, depois do pleito instalado, a busca da solução. Isso é feito diuturnamente. E os Desembargadores gostam dessa aproximação, porque ali nós conseguimos compreender melhor o que está por trás da letra fria de um pedido protocolar.”

Com o passar dos anos, essa presença institucional também se tornou cada vez mais necessária em Brasília. Jussara Wandscheer, presidente da AMC entre 2018 e 2021, lembra que temas relevantes para a Magistratura passaram a exigir acompanhamento permanente junto ao Conselho Nacional de Justiça, aos Tribunais Superiores e ao Congresso Nacional. 

“Com essa ideia de Magistratura nacional, tudo passa por Brasília. Os grandes temas passam por Brasília. Seja pelo CNJ, pelo Supremo, pelo Congresso Nacional.” 

Para ela, essa articulação não deve acontecer apenas quando uma pauta chega ao momento decisivo. O trabalho exige relações institucionais permanentes, inclusive em períodos nos quais não há um resultado imediato a apresentar.

O que ainda não pode ser contado

Há outra particularidade nesse trabalho: nem toda articulação em andamento pode ser comunicada enquanto acontece. 

Marcelo Pizolati, presidente da AMC entre 2021 e 2024, considera esse um dos desafios da representação associativa. 

“Um dos grandes desafios é transmitir para a classe o desenvolvimento do teu trabalho político e os resultados. Porque são conversas de bastidores e o vazamento de uma informação estratégica pode colocar todo um trabalho político a perder.” 

A dificuldade está justamente em conciliar duas responsabilidades: manter os associados informados e, ao mesmo tempo, preservar o espaço necessário para que determinadas negociações possam avançar. 

Depois de deixar a presidência, Pizolati passou a enxergar essa dimensão do trabalho associativo de outra maneira. A experiência, segundo ele, ampliou sua percepção sobre tudo aquilo que acontece antes de um resultado chegar ao conhecimento dos associados. 

É um trabalho que nem sempre produz uma fotografia, um anúncio ou uma conquista imediata. Em alguns momentos, o resultado está em avançar uma pauta. Em outros, em manter uma porta aberta, construir uma relação ou impedir um retrocesso.